A vida como performance.
Audição de Katie Kitamura e O ensaio de Eleanor Catton.
Imagine você ir para um restaurante com uma pessoa que dias atrás disse que achava que podia ser seu filho — algo impossível, pois você nunca teve filhos. Essa pessoa começa a imitar alguns trejeitos seus, como se tivesse passado dias te estudando, vendo seus filmes para te decorar e agora indo atrás de você em um ensaio de uma peça de teatro. É uma pessoa com um magnetismo desconfortável, e que você não sabe o motivo de continuar aceitando esses convites para conversar com ele — você simplesmente aceita. Seu marido aparece nesse restaurante, um lugar longe de onde ele costuma ir. Ele finge que não te vê e dá meia volta. Qual o motivo? Você começa a questionar sua posição como atriz, esposa, e como indivíduo. Aí o livro muda totalmente e os papeis se invertem. Estamos encenando outra peça, digamos. Agora esse jovem é seu filho e decide que precisa voltar a morar com você por um tempo, mas vai levar uma pessoa. Pouco a pouco essa estadia deixa de ser apenas física, mas também psicológica — e espaçosa.
Audição, de Katie Kitamura, com tradução de Érika Nogueira Vieira, acompanhamos a vida de uma atriz, que atua nos palcos e também fora dele — mas não é isso que todos fazemos? Performamos muitos papéis em nossas vidas: papel de mãe, filho, esposa, amiga, namorada, mestrando, trabalhador, escritor, leitor. Atuamos quando achamos que não estamos atuando — performando uma não-performance? Kitamura não se importa se você vai ficar perdido e se perguntando o que está acontecendo ou o que ela quer dizer com isso ou aquilo. Kitamura está atuando também, o papel de escritora. O livro são duas metades espalhadas, como diz a orelha, e você precisa assistir, ou melhor, ler essa peça com desconfiança e descrença.
O livro de Kitamura me fez lembrar um dos meus livros favoritos e pouco conhecido, chamado O ensaio, da escritora Eleonor Catton e com tradução de Adriana Lisboa.
[PERSONAGENS]
Isolde: estudante do ensino médio, de saxofone e irmã mais nova de Victoria
Stanley: saiu do ensino médio recentemente e quer ingressar no Instituto de Artes Dramáticas
Victoria: vítima do escândalo sexual
Professores: de música (predador), professora de sax e vários professores de teatro
Outras alunas: Julia, Bridget e Patsy
Saxofone: instrumento musical
Ato I
[NARRADOR COMEÇA O TEXTO]
Quando gostamos de um livro pouco conhecido, a vontade de falar sobre ele aumenta. O ensaio de Catton (mais conhecida pelo premiado “Os Luminares”), traz a música e o ato cênico para o romance. A história se desenvolve em dois pontos de vista, a de Isolde: irmã da vítima que teve um caso escandaloso com o professor de música do Ensino Médio — e Stanley: recém formado no colegial e lutando para entrar em uma instituição famosa de teatro.
O núcleo de Isolde é desenvolvido nas suas aulas de saxofone com uma professora excêntrica e curiosa, nas suas conversas com as colegas e no seu dia a dia na escola. O escândalo sexual abala toda a estrutura social e emocional dessas meninas, sendo o assunto mais importante e o tema principal de todas as conversas das alunas.
Já o núcleo de Stanley, é focado nos seus testes para passar na escola de teatro e nas aulas com seus professores cênicos, além da grande peça no final do semestre que os alunos do primeiro ano precisam fazer — é nessa peça onde os dois núcleos acabam de mesclando, e levando o enredo do romance ao final.
Todos os personagens apresentam características e atitudes quase pitorescas, como se todos estivessem interpretando um papel que foi designado pela própria autora do romance. O despertar da sexualidade e perda da inocência são os grandes temas dessa peça que conhecemos como A adolescência.
Lendo, sentia que todos os personagens estavam na coxia, na espera de entrar em cena, de protagonizar o grande ato de sua juventude. Afinal, estamos todos interpretando em nossas vidas, os dramas reais e encenados sempre se confundem, confundindo a nós mesmos e a todos ao nosso redor, não é mesmo?
Fim do Ato I.


