Fazer amor com árvores.
Feitiços: fazer amor com árvores, de Agnieszka Szpila, com tradução de Milena Woitovicz Cardoso.
Anna Szajbel, a primeira protagonista desse romance polonês traduzido por Milena Woitovicz Cardoso e publicado pela Todavia em 2024, é a típica girlboss estereotipada: ela é CEO de uma empresa de combustível. Sabe a Emma Stone em Bugonia, o último filme do Yorgos Lanthimos? (inclusive, esse livro me lembra um pouco os filmes do diretor) que também é uma CEO importante de uma empresa? Essa é Anna. Assim como a personagem de Emma Stone, Anna Szajbel precisou dançar a dança do patriarcado e fazer de tudo para conseguir chegar onde queria — e onde chegou. Anna é odiada pelos homens da empresa pela posição que está. É odiada pelas feministas e ativistas ecológicas por ser uma CEO de uma empresa que acaba com o meio ambiente. É odiada porque uma mulher vai incomodar alguém, não importa sua posição e onde ela esteja. Anna é um personagem detestável, cínica e com uma raiva ancestral — prestem atenção nessa minha última palavra.
Recomendado pela Nobel Olga Tokarczuk, uma ficção rebelde e cheia de erotismo. Um ode à potência das mulheres e da natureza.
Todavia.
A primeira parte do livro conhecemos a história dela. Como é a relação de Anna com sua família — péssima —, como é a relação com seu marido paraplégico (será mesmo?) que não transa com ela — péssima —. Sua relação com os homens que precisou se relacionar para chegar onde chegou — péssima. Todo esse descontentamento com tudo e todos é potencializado pela sua bipolaridade, doses de lítio, bebida e sonambulismo. O ápice é quando em uma dessas crises de sonambulismo, depois de beber e tomar 3 comprimidos de lítio, ela é gravada por um companheiro de empresa pelada transando com uma árvore em uma floresta do bairro. O vídeo viraliza, ela perde tudo que conseguiu e tem uma ingrata surpresa dentro do próprio casamento. Além disso, as ecofeministas radicais que tanto a odiavam, começam a vê-la como inspiração, tratando seu infame vídeo como uma performance ativista. A rachadura que Anna já continha vira um grande buraco e sua raiva toma um rumo brutal e transcendental.
Agnieszka Szpila [a autora] é ecofeminista, pesquisadora e ativista, trata de temas urgentes como racismo, homofobia, misoginia, construção da sexualidade e o antropoceno.
Todavia.
E é aqui que entra a segunda parte da história. Se você não gostou do romance até o momento, não se preocupe: ele vira outro livro; é uma história dentro de uma história. Conhecemos, então, a vida de outra protagonista, Helene Spalt, e de suas descendentes, na Idade Média. O nome do livro, Feitiços, faz total sentido nesse momento. Acompanhamos agora um romance histórico, em um mosteiro, em uma floresta, em uma caça às bruxas. Uma ode à Mãe Terra desde os primórdios e à criação de um coven, uma congregação. É literalmente o que conhecemos por “sagrado feminino” ou ‘‘raiva feminina’’— o que é uma observação pertinente para problematizarmos, já que o livro todo retrata mulheres apenas com vulva e que menstruam, sem considerar outras minorias e possibilidades. Essa parte da história me lembrou o que eu imagino que seja o livro Mulheres que Correm com os Lobos (cabe a você decidir se isso é algo bom ou ruim). Já ao final, o romance dá outro giro e, obviamente, a primeira história se conecta com a segunda, e ainda com a participação de um novo personagem na trama — um gay usuário do Grindr!
Esse é mais um livro que só poderia ser escrito por uma mulher — sem essencialismo ou universalismo. Mais uma vez, Hélène Cixous e sua teoria sobre uma ‘‘escrita feminina’’, se faz correta e presente — uma escrita que reflete o corpo. Se na idade média eles queimavam mulheres, hoje essa tortura e opressão é feita de outras formas: assédios, internações psiquiátricas, feminicídios e outras macro e micro torturas e agressões do dia a dia decorrentes do patriarcado — e tudo isso encontramos dentro do romance.
Se você gosta de Ottessa Moshfegh, Lisa Taddeo, romances históricos, textos feministas e histórias irônicas, vá sem medo para essa leitura.





AFE preciso ler!!!😡❤️
PRECISO LER