Juventude interrompida.
A redoma de vidro, Garota, Interrompida, Nunca lhe prometi um jardim de rosas & Hospício é Deus.
Nunca lhe prometi um jardim de rosas, de Hannah Green, é um romance autobiográfico da autora, onde ela conta sua luta contra a esquizofrenia em um hospital psiquiátrico. O subtítulo da edição brasileira é: romance & psicanálise, e foi traduzido por Jayme Benchimol em 1987.
Durante sua estadia no hospital, Deborah Blau, de 16 anos, fica presa em um mundo criado por ela, com entidades e língua própria, chamado Yr. Acompanhamos então, a luta da garota para se manter sã, na qual a realidade e a irrealidade travam uma briga feia no interior na garota, transferindo-se para seu exterior e deixando marcas em sua pele. Com a ajuda da Dra. Fried, uma médica psiquiatra e também terapeuta, Deborah tenta reunir forças para lidar com essa doença. A Dra. deixa claro: a doença não vai desaparecer, mas ela quer dar a oportunidade a Deborah de ter armas para lutar e para que a adolescente consiga viver uma vida considerada socialmente normal.
Impossível não ler esse livro e não traçar um paralelo entre A Redoma de Vidro e Garota, Interrompida. Ambos são autobiográficos, se passam nos anos 60 e tratam do sofrimento psíquico feminino em hospitais psiquiátricos — toda a movimentação, todas as amizades e consultas. A grande diferença do romance de Hannah para esses dois é talvez um olhar mais humanizado e esperançoso para essas pessoas — lembrando que estamos falando dos anos 60, quando a psiquiatria ainda era algo novo.
Também é interessante ver, nesse romance de Hannah, o outro lado das “grades da Ala D”: o lado do mundo exterior, no qual familiares ficam angustiados ao ver seu ente querido em um lugar que não oferece garantia de melhora — além de todo aquele estigma social de ter alguém da família internado.
Infelizmente, o romance só é encontrado em sebos, mas vale a pena procurá-lo.
Por algum motivo o tema da depressão & saúde mental sempre me atraíram. É uma atração mórbida e romantizada, mas eu lembro de ler sobre isso na adolescência (juntamente com Creepypastas) e ficar fascinado. Eu quero ser internado em um hospital psiquiátrico! pensava. Quando eu tive contato pela primeira vez com A redoma de vidro da Sylvia Plath, um mundo se abriu para mim. Coleciono várias edições do romance em diferentes idiomas: uma amiga trouxe uma do Chile, uma tia trouxe uma da França, tenho mais duas edições em inglês e algumas em português (caso você viaje para outro país, lembre-se de mim, okay?). Lendo o livro da Hannah Green, resolvi revisitar o texto que escrevi em 2023 sobre o romance da Sylvia:
Era um verão estranho, sufocante, o verão que o presidente Lula ganhou as eleições, e eu não sabia o que estava fazendo em São Paulo.
Como é complicado escrever sobre nosso livro favorito. Tudo que eu colocar aqui, nunca vai me parecer suficiente. Desde que me apaixonei verdadeiramente pela literatura, A Redoma de Vidro me acompanha. Lembro que logo que terminei de ler o romance pela primeira vez, pesquisava na internet: ‘’livros iguais a redoma de vidro’’ — ‘’books like the bell jar’’. É um daqueles casos de livros que te moldam como leitor, que é referência para o tipo de literatura que você consome e busca.
O romance quase autobiográfico narra a história de Esther, uma estudante exemplar que acaba de chegar na eufórica e deslumbrante Nova York para estagiar em uma revista de moda. Jantares, champanhe, desfiles, luvas de pelica, unhas amareladas pela nicotina, homens, garotos do passado, seu futuro profissional e emocional, acabam engolindo Esther, e ela cai em uma espiral de depressão, ficando refém da sua própria mente e sanidade, resultando em sua internação em uma clínica psiquiátrica.
Assim como São Paulo, Nova York não era mais deslumbrante e encanadora onde os sonhos poderiam ser realizados, era uma cidade tão grande e tão cheia de promessas de oportunidades, lugares para conhecer e pessoas para encontrar, que se tornava sufocante. Me lembrei da Esther especialmente nessa última viagem que fiz, e foi nesse período que comecei a pensar sobre escrever uma resenha para o livro.
Esse romance, além de tratar sobre um assunto tão sério como a saúde mental — debatido em inúmeros artigos acadêmicos, resenhas e pesquisas — também é um livro glamuroso, jovem, cheio de sonhos e petulância, como o período dos vinte anos em nossas vidas. Acontece que, nesse caso, tudo isso é envolto em uma névoa — ou melhor, uma redoma — de melancolia. A linha entre ser jovem e ter um futuro brilhante e a perda da vontade de viver é tão ténue, que entramos nessa redoma junto com Esther sem percebermos ou nos darmos conta durante a leitura.
Eu já estive dentro dessa redoma abafada, e acredito que muitos também estão ou já estiveram.
Outro romance com essa temática que também me fascinou, foi Garota, Interrompida, da Susanna Kaysen. O livro foi publicado em 1993, mas se passa nos anos 60, quando a autora tinha 18 anos. Susanna achou que ficaria alguns dias internada, e acabou presa por 18 meses no hospital. Para ela, todo aquele período foi vivido como se fosse ‘‘um único e longo dia’’, já que a rotina repetitiva fazia com que os dias parecessem indistintos. Após deixar o hospital, ela começou a relatar sua vivência por escrito e descobriu prazer nesse processo, o que a motivou a seguir o caminho da escrita de não ficção. O título do livro foi inspirado na pintura Garota Interrompida em sua Música, de Johannes Vermeer. Para Susanna, a obra simboliza a interrupção de sua juventude, um momento em que, em vez de seguir rumo ao mundo, precisou voltar-se para dentro de si durante a internação. O livro ganhou destaque quando foi adaptado para as telonas, com Winona, Angelina e Brittany. Segundo a autora, o filme só foi produzido graças à insistência de Winona Ryder, que se identificou com a obra e queria interpretar Susanna.
Percebi, enquanto escrevo essa edição, que estou lendo Hospício é Deus: diário I., da Maura Lopes Cançado para uma disciplina do mestrado (estão vendo como esse tema me assombra?). O livro é um retrato das auto-internações da escritora brasileira em hospitais psiquiátricos no Brasil também nos anos 50-60. No diário, Maura relata as vivências, o cotidiano da vida nesses hospitais e a convivência com as outras internas e com os médicos. O relato manicomial de Maura serve também como um recorte histórico dessa época no Brasil. A autora, inclusive, cita Dra. Nise de Silveira e sua terapia por meio da arte, dizendo que o trabalho que ela estava fazendo era muito bom — mas que as pessoas que trabalhavam para a Nise, eram péssimas.
É interessante comparar esses hospitais psiquiátricos nesses diferentes livros. Apesar da distância física, o sentimento de solidão e de não-pertencimento à sociedade é o mesmo em todos eles — no mundo todo. Penso em levar esse livro para o clube em algum momento, é bastante interessante e renderiam boas discussões. Devo comentar mais sobre o diário na próxima edição de Caderno de estudos.
Nesta época internei-me pela primeira vez em sanatório para doentes mentais. (Já eu tinha dezoito anos.) Ninguém entendeu o motivo desta internação, a não ser eu mesma: necessitava desesperadamente de amor e proteção. Estava magra, nervosa e não dormia. O sanatório parecia-me romântico e belo. Havia certo mistério que me atraía.
Hospício é Deus. pg 78.







Adoro A Redoma de Vidro e Garota, Interrompida, então sua dica está anotadíssima aqui! Seu texto me fez lembrar de um livro chamado Esto no es un hogar, de uma autora que fala sobre suas vivências internada em uma clínica psiquiátrica por conta da depressão. Acredito que só esteja disponível em espanhol, é uma leitura maravilhosamente tapa na cara. Recomendo
minha edição de hospício é deus já está prontinha aguardando uma chamada do clube!!!! amei a edição, ler sylvia me abriu pra um novo mundo na literatura e um salto pra dentro de mim. amo nossa mãezinha 🩷