Blazers et al.
After the Hunt, o closet dos acadêmicos e a dinâmica de ser uma 365 party girl nesse meio.
O filme Depois da Caçada, dirigido por Luca Guadagnino, começa com um tique-taque insuportável que me fez, por alguns segundos, suspeitar de defeito técnico na sala do cinema. Uma espécie de presságio sonoro, um lembrete de que alguma coisa ali estava prestes a desmoronar. Virei para minha amiga com uma cara de irritado, esse som parecia não acabar nunca.
Enfim, logo conhecemos a protagonista: Alma Imhoff, uma professora do departamento de pós-graduação em Filosofia, elegante em um jeito quase performativo — cheia de tweed, calças brancas, taças de vinho e encaradas intelectuais e performativas. Ela circula pelos corredores com aquela aura de quem sabe que está no topo — intelectual, social e institucionalmente.
Só que tudo começa a se desfazer quando ela é puxada para uma sinuca de bico envolvendo uma de suas alunas prodígios, interpretada por Ayo Edebiri, e um colega (e amigo íntimo) do departamento, interpretado por Andrew Garfield. E é aí que o filme começa a tensionar tudo: lealdades, reputações, poder acadêmico, e, principalmente, a imagem que ela mesma construiu de si.
O filme foi massacrado pela crítica. Segundo o site HeadSutff, ‘‘é o mais recente de uma série bizarra de ensaios reflexivos […] que parecem ter como objetivo explorar a hipocrisia da cultura do cancelamento, reagindo ao movimento “#MeToo” e ao “woke” ao fazer uma pergunta central: “Sim, mas será que ele realmente fez isso?”. Para o The Guardian: ‘‘Luca Guadagnino erra o alvo com este drama universitário sobre acusações do movimento #MeToo, inexplicavelmente longo e exagerado… o roteiro é preocupantemente confuso e artificial, e a caracterização dos personagens é desfocada’’. O vexame foi tanto que nem mesmo a Isabela Boscov gravou um vídeo falando sobre o filme (e eu estava esperando). Vale lembrar que é o roteiro de estreia da atriz Nora Garret.
Achei um pouco das críticas injustas. Todos os personagens são tão dúbios, complexos e odiáveis que você não torce para alguém estar certo ou errado, você não fica dividido entre vítima e algoz, você só quer observar o circo pegar fogo de maneira distante e com uma taça de vinho nas mãos.
Como meu melhor amigo diz que tenho a síndrome de Hannah de GIRLS, eu trouxe toda essa performatividade acadêmica do filme para o que estou vivendo agora no mestrado. Assim como a personagem da Ayo, eu também quero ser o preferido da minha orientadora, o melhor aluno, o puxa-saco que tenta se destacar no meio de tantos outros.
O figurino de Julia Roberts foi uma das coisas que mais me chamou atenção. Eu fiquei obcecado e queria trazer esse estilo dela como a minha nova personalidade — comprei até uma calça branca, só por causa dela. Quero servir cunt enquanto desfilo nos corredores do G34 com uma pose seríssima e intelectual, mas no fone: ‘’É por isso que a tua ex tá falando até hoje que foi livramento / Ou você fode mal ou tem pouco documento / Não fez a inteira do ice, não vai ter minha xota hoje / Ele tava duro no baile querendo uma otária essa noite’’.
Uma das coisas mais difíceis de equilibrar hoje em dia — e a Mari, convidada desta edição, sabe bem — é ser uma 365 party girl e acadêmico. Está tudo bem você terminar um slide de um seminário sobre Hélène Cixous depois de chegar de uma festa varado às 6h50 da manhã. Eu amo performar essa vibe acadêmica e dar carteirada que sou mestrando BOLSISTA CAPES QUE PASSOU EM PRIMEIRO LUGAR, e usar um blazer de brechó em alguma apresentação. Mas também amo estar no front dançando com minhas amigas em algum techno com minha baguete da SHEIN e meu Lafufu pendurado que ganhei de presente da minha melhor amiga. Vamos viver e nos levar menos a sério! Falei um pouco sobre isso — mas de maneira mais irônica — no meu post que mais fez sucesso na news Um guia para ser um leitor BRAT. Para vocês terem uma ideia, eu compro roupa só para apresentar em seminário, aloka.
E é por isso que o figurino de After the Hunt me deixou tão fascinado e precisei chamar uma amiga que também ficou fascinada para escrever comigo, a cuntíssima, mestra e agora DOUTORANDA Mariana Soletti, que possui a news white girl problems
Se tem uma coisa que não consegui entender em After the Hunt, é como todas as personagens conseguem estar tão bem vestidas em todas as ocasiões. A costume designer Giulia Piersanti aposta em cores neutras, sofisticadas e discretas, sem logos evidentes: não à toa meu coração disparou quando a Julia Roberts apareceu com uma bolsinha The Row. Os blazers? Girl, shut the fuck up. Nada de cores quentes, vestidos, saltos altos ou silhuetas muito femininas. Ninguém usaria um terninho de neoprene em Yale, né? As linhas são retas, sóbrias e “duras”, com uma paleta de cores frias, reforçam a rigidez das personagens e o controle que cada uma delas tenta impor às suas narrativas de vida. A Celine knitwear head veio muito bem em emanar um senso de autoridade através do figurino, e eu não esperava menos do que um luxo invisível, o status do “I’ve got this”.
Um quiet luxury frio, como comenta a Vogue estadunidense, tem tudo que revela sobre poder, distância emocional e o ambiente acadêmico de Yale. Existe ausência de acolhimento, ausência de cor, o que eu, à primeira vista, achei o máximo. Confesso que fui uma das adolescentes que ia de bota e tiara para as aulas do Ensino Médio me achando a Blair Waldorf sem ter onde cair morta. Somos puxados para a rigidez acadêmica o tempo todo, para a ideia de que “se vestir bem” é sinônimo de intelectualidade e, óbvio, valor. Meus olhos brilharam, mas sinto que posso (e devo) ir para outra direção de vez em quando.
Eu e João comentamos sobre como é difícil, às vezes, sermos bad bitches enquanto acadêmicos. Tem gente que não entende que dá para servir cunt e ouvir Irmãs de Pau enquanto se escreve sobre Silviano Santiago. Vejo muitos colegas incessantemente competitivos nas redes sociais, compartilhando em demasia suas quests acadêmicas, quantos seminários atenderam, seus artigos publicados, as jornadas exaustivas para escrever artigos que só nós, coitaduxos do Lattes, leremos. Fico pensando se não é um pouco revolucionário vivermos a vida como publicitários ou stylists às vezes. Poste seu girl brainrot! Tenha um humor questionável! We’re all gonna die anyway. É o que eu pensei assistindo ao filme. Um dia ou outro, é bom ser a Julia Roberts no departamento de Filosofia. Mas, na grande maioria das vezes, não deixe de usar sua barriga de fora em uma palestra sobre o romantismo alemão. E, sim, seja problemático. Todo mundo é.
Uma roupa não necessariamente diz “sim” ou “não”, mas certamente comunica nossa visão de mundo (é difícil entender isso hoje em dia… não quero entrar em maiores polêmicas em Newsletters alheias!). Posso mentir e dizer que não quero ser um tiro na cara da sociedade, à la Jojo Todynho, mas perceber meu guarda-roupa como uma ferramenta contra a caretice das universidades. Acho que a injustiça para com After the Hunt passa não só pela impossibilidade da grande maioria do público em acessar o ambiente mais tóxico do mundo como pela hipocrisia daqueles que conhecem muito bem os corredores, mas que optam por desfilar com seus crachás, um abre alas para validação. I stick with my thrist traps and the gays for now, thank you very much.




assisti esse filme ONTEM e hoje me deparo com esse texto! eu também fiquei obcecada pelos figurinos e adorei o detalhe de que as roupas da maggie tentavam imitar as da alma (inclusive a calça branca). amei o texto!!
Um dos meus textos favoritos até agora! Arrasaram <3