En otras palabras.
A relação de Jhumpa Lahiri com o italiano e a minha com o espanhol.
Eu falante nativo de Português que entende Inglês e está aprendendo Espanhol estava lendo um livro de uma autora que seu primeiro idioma foi o Bengali mas se alfabetizou em Inglês e se apaixonou pelo Italiano e escreveu esse livro em Italiano e que foi traduzido para o Inglês por outra pessoa e agora está em minhas mãos.
Jhumpa Lahiri conta neste livro de memórias, In Others Words (In altre parole), seu enamoramento com o italiano. Não tem palavra melhor do que enamoramento para descrever o que ela sente pelo italiano — e o que eu estou sentindo pelo espanhol nesse momento. A autora usa analogias diferentes para descrever o sentimento de estar aprendendo uma nova língua, como atravessar um lago sem a ajuda ou apoio de ninguém — na verdade, um oceano, ela mesmo se corrige mais a frente.
For twenty years I studied Italian as if I were swimming along the edge of that lake. Always next to my dominant language, English. Always hugging that shore. It was good exercise. Beneficial for the muscles, for the brain, but not very exciting. If you study a foreign language that way, you won’t drown. The other language is always there to support you, to save you. But you can’t float without the possibility of drowning, of sinking. To know a new language, to immerse yourself, you have to leave the shore.
No entanto, a minha favorita aparece no capitulo “coletando palavras”, onde ela fala que o processo de caçar palavras funciona mais ou menos assim: ela se sente entrando em um bosque com uma cesta, buscando e coletando palavras em todos os lugares: nas árvores, nos arbustos, no chão (na realidade: nas ruas, nas conversas, nas leituras). Porém, nunca é o suficiente, ela (e eu) temos um apetite enorme. Mas nós nos frustramos, porque essa cesta é a nossa memória, e muitas vezes as palavras se perdem no caminho de volta para casa.
Me sinto dessa maneira coletando palavras novas em espanhol durante a classe, durante as leituras, nos filmes, nos vídeos do Youtube sobre livros: chisme, tenedor, cuchara, fresa, beca, pileta, sillón, césped, cazadora, ubicado, cepillo, espabilar, guarderia, taller, etc, etc. São tantas, como elas vão caber no meu cérebro e no meu coração sem eu esquecê-las? E os cambios vocálicos? E o verbo quedar? E falar e me expressar em espanhol? Parece impossível! Eu me irrito quando alguém fala que espanhol é fácil. Quando eu finalmente acho que entendi alguma coisa, dou alguns passos para trás.
How is it possible to feel exiled from a language that isn’t mine? That I don’t know? Maybe because I’m a writer who doesn’t belong completely to any language.
O livro da Jhumpa é bilíngue. De um lado temos o texto dela em italiano, e do outro a tradução para o inglês feito por Ann Goldstein (tradutora da Elena Ferrante, aliás). Uma das coisas interessantes desse livro é que a autora, Jhumpa, não se traduziu. Ela explica essa decisão lindamente no prefácio: não se autotraduziu porque sabia que se fizesse isso, iria tirar toda crueza e talvez estranheza de seu texto em italiano. Basicamente, ela sentia que poderia rebuscar seu próprio texto se o traduzisse. Além disso, ela estava disciplinada em escrever e ler apenas em italiano, e essa autotradução iria quebrar essa disciplina, enfraquecer seu italiano e até mesmo desanimá-la, quando ela percebesse suas limitações quando traduzisse para o inglês. Ela queria que alguém traduzisse o texto pelo o que ele é, com suas subjetividades e limitações.
Me considero com um inglês quase avançado, mas tenho preguiça de ler nessa língua porque me exige uma atenção maior. Antes de ler esse livro da Jhumpa, o outro livro completo em inglês que eu li foi outro livro de memórias, há anos, da Cat Marnell. E anotei no meu diário assim que finalizei essa leitura que estava sentindo um mar aberto de novas descobertas. Nada poderia me segurar e eu poderia ler tudo em inglês agora! Não foi o que aconteceu. Sempre que eu tentava ler outros livros em inglês, alguma palavra ou o vocabulário me desanimava. Parecia que o oceano era muito fundo e eu não estava com coragem de atravessá-lo. Não sei se o motivo de ter conseguido ler esse livro da Jhumpa foi por estar obcecado em aprender uma nova língua, ou se porque foi escrito em italiano com vocabulário menos rebuscado (pois a Jhumpa continua estudando) e traduzido da mesma maneira para o inglês.
Mas por que estou lendo em inglês se quero ler em espanhol? Eu deveria estar feliz que finalmente li outro livro em inglês, mas só fiquei pensando que quero ler logo um livro inteiro em espanhol e ter essa sensação de dever cumprido. Já escrever… essa já seria outra história. Escrever em uma nova língua, como comenta Jhumpa, para penetrar em seu coração, não vai acontecer de um dia para o outro. Não tem aula, tecnologia, desejo e vontade que faça isso acontecer tão rapidamente. Você não pode acelerar tanto o processo. Além disso, nunca vamos aprender 100% de um idioma.
Ler esse livro me animou e também me desanimou. Eu queria apenas dormir e acordar hablando español, virar um tradutor da noite para dia. Será que se eu bater a cabeça eu fico fluente? Sei que tenho anos e anos pela frente, muitas aulas, textos, anos de estudo. Para vocês terem uma noção, esse livro da Jhumpa saiu depois que ela estudou 20 anos italiano (com ela se mudando para a Itália, ainda por cima). Esse número me pareceu um absurdo e eu precisei respirar fundo para não desistir de tudo.
Será que algum dia eu iria pensar e sentir em espanhol? Ler, escrever, traduzir? Falar, não falar, chorar em espanhol? Seria possível? Tudo na minha vida vai mudar quando isso acontecer?
I don’t have a real need to know this language. I don’t live in Italy, I don’t have Italian friends. I have only the desire. Yet ultimately a desire is nothing but a crazy need. As in many passionate relationships, my infatuation will become a devotion, an obsession. There will always be something unbalanced, unrequited. I’m in love, but what I love remains indifferent. The language will never need me.
Tentei comparar meu aprendizado do inglês com o que estou tendo agora em espanhol. Só tive aulas de inglês na escola e não aprendi nada. O que sei de inglês foi por conta própria, vendo séries e filmes legendados, ouvindo músicas, lendo tweets, etc. Só que esse entendimento ‘‘natural’’ e gradual aconteceu durante mais ou menos 10 anos. Não quero demorar isso com o espanhol, e creio que não vou, pois estou estudando, além de consumir conteúdos hispânicos — mas continuo apreensivo.
Quero me propor um desafio em algum momento — parecido com o da Jhumpa —, ler apenas livros em espanhol (por entretenimento), e ter um diário só para me expressar nessa língua. Um diário para registrar todas essas falhas, mas também todos os desejos de aprender mais e mais o idioma. Por hora, fico com uma meta mais humilde: ler um livro inteiro em espanhol. Logo vocês verão um texto sobre essa minha experiência de leitura.



amei o texto, João, como sempre! acho que aprender idiomas é mais um dos hobbies que nos ajuda (ou melhor, nos obriga, né? kkkk) a fazer as coisas com calma, respeitando os processos. a gente quer tudo pra ontem, mas também é bom lembrar de aproveitar a jornada <3 vejo isso pelos meus alunos (sou prof de inglês): cada palavra, expressão, estrutura que eles aprendem é um brilho no olho diferente. eu acho tão bonito! e, como você disse, sempre vamos estar nesse processo, porque nunca vamos dominar alguma língua.
adorei o texto! o espanhol já está na minha vida desde a escola, mas ainda me sinto em processo de aprendizado. eu escuto regurlarmente audiolivros em espanhol (inclusive recomendo) e nesses momentos, mesmo aqui perdida em curitiba sem qualquer outro contato com o idioma, me pego pensando em espanhol. é uma sensação tão boa, valorizo demais esses momentos. ler essa edição me fez pensar que nunca consegui (nem fui muito atrás) de dominar a escrita em espanhol. dominei a compreensão e a fala, a escrita me parece mais difícil. fiquei curiosa com a sua escolha de primeira leitura em espanhol, depois conte aqui! meus primeiros livros em espanhol foram releituras do que eu já tinha lido na tradução.